quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Começando

Sou mais uma que se vê impotente diante desta doença maldita. Oficialmente a quase três anos minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer, contudo na realidade sofremos com os sintomas desta enfermidade a mais tempo, talvez uns 5, 6 anos. De leves esquecimentos para o esquecimento de sua própria pessoa é um caminho doloroso para ela e principalmente para quem se encontra por perto, não apenas em como lidar com os sintomas mais como nos sentimos com isso ao lidar com ela deixando se ser ela em doses homeopáticas.

Lembro-me de como minha mãe costumava ser: altiva, petulante, engraçada, amorosa, rude, opiniosa, todas as contradições que fazem as pessoas serem especiais ela possuía e possui ainda de certa forma, embora que em latência. Na verdade, ela é minha avó por parte de mãe, mas como a genética não entra na equação dos laços de amor que criamos com as pessoas, ela era minha mãe, em todos os sentidos e complexidades, agora o papel se inverteu, eu sou sua mãe com todas as complexidades e dificuldades que esta inversão causa e está causando.

Minha vida se encontra em ponto morto, meus projetos em suspensão indeterminada enquanto a correnteza do tempo passa por nós abruptamente. A escolha em ter que ficar pra trás e cuidar dela foi feita, eu a faço constantemente, todos os dias, todos os momentos, até nos mais exasperantes. Não, não é uma coisa linda de se fazer, nenhum sacrifício é lindo ou bonito, os sacrifícios são dolorosos porque implica que deixamos uma parte de nós para assumir outra inesperada, seja qual for a escolha algo se perde, alguém sofre. “Não há salvação!”.

Infelizmente procuramos o médico tarde demais e o Alzheimer dela já se encontrava num estágio mediano indo para o avançado. Dava para notar que ela já não estava sendo ela por um tempo; acredito que o estopim para todos saírem de seu campo de conforto e perceberem que algo estava errado foi o fato dela se esquecer de como cozinhar, minha mãe era uma cozinheira de mão cheia mas andava colocando colorau no arroz e torrava a carne temperada com muito colorau, um pouco de pimenta e sal; isso sem mencionar nas mudanças bruscas de humor.

Dizer que foi um choque se deparar com a mãe não sendo ela mesma é um eufemismo dos grandes. Eu já vinha falando que ela poderia estar com Alzheimer bem antes, mas ninguém quis acreditar, ninguém quis tirar a peneira do sol, preferindo clamar por Deus para que nada de ruim acontecesse. Quando veio o diagnóstico, eu já esperava, o que não esperava é que dentro de pouco tempo minha existência iria se tornar um “estúpido bater de pés”, uma vez que meus propósitos não se encontram mais a minha frente num futuro-próximo mas num futuro-indeterminado, por minha própria escolha.